28.6.12

Essa gente viu, Zé!

Você sumiu, nunca mais falou comigo. O que aconteceu pequena? Aí Zé! Desculpa, desculpa mesmo. Você não tem que pedir desculpa para eu, tem que pedir desculpa para você. Não é você quem diz que se esfola toda quando fica sem escrever? É né Zé. Então. Você está péssima, garota. Não pode ficar guardando tanta coisa assim não, faz mal. Eu sei Zé, eu sei. Mas eu não aprendo nunca. Acho que entrei em bloqueio. Dias, semanas, quase um mês olhando para uma página no word ou para uma folha em branco e o que saia? Rabiscos na borda da folha, frases desconexas na página word. E eu não conseguia. Não conseguia redigir nada. Absolutamente nada. Depois me faltava tempo. Queria escrever, mas não... nunca dava tempo. O tempo que eu gosto de ter para escrever. Pensar, escrever, pensar, escrever, pensar, re-e-e-e-e-e-e-e-escrever. Então a única coisa que eu poderia fazer é o que eu já estava fazendo a muito tempo: Sentir e remoer. Remoer e sentir. Se eu ao menos conseguisse escrever, ótimo. Mas nem isso. Aconteceram tantas coisas e o que eu escrevi sobre todas elas? Nada. Acontecimentos maravilhosos e também ultra-constrangedores. Tá confuso né? Me sinto meio remota, parece que nunca escrevi na vida. Não tô conseguindo liberar os dedinhos. Aí, meus dedinhos! Zé? Tô te ouvindo. É que você disparou a falar... Ah tá, me desculpa.  Então Zé, continuando. Esses dias eu surtei Zé, surtei. Você sabe que eu faço muito silêncio no meio do meu barulho, mas é que o silêncio é tão sedutor. Elegante. Educado. Magnifico. Mas muito silêncio também é inconvêniencia né Zé. E eu sou muito inconveniente, você sabe. Sempre adotei a politica da boa vizinhança. Nada de brigas. Tudo na paz. Sempre engoli quieta, todos os sapos. Moluscos. Peixes estragados do mar. Soa até covardia, talvez seja. Mas ficar me desgastando por aí? Francamente, hein. Só que Zé, chegou uma hora que eu não aguentei mais.  Eu posso até abaixar a cabeça pra muita gente, pra muita coisa só pra evitar "transtornos", mas isso cansa entende? Eu não tenho sangue de barata Zé. Toda bomba, uma hora explode. Não sou obrigada. Então Zé, eu dei uma de louca e a pessoa assustou. Depois a errada sou eu... Zé, manda essa gente acordar pra vida. Tô triste viu Zé, tô muito triste. Poxa, me fazem de troxa até a hora que eu deixo, aí quando eu surto ainda quer graça? Ixe Zé, falei mesmo. Chorei também porque eu sou sentimentalista. Deu dó da pessoa depois porque eu sei que minha boca é uma lâmina, mas também não me arrependo não. Tava pedindo viu Zé. Ninguém mandou dar uma de besta pro meu lado. Zé, fala comigo. Só eu falo aqui. Quer que eu fale o quê louca? Você não dá uma pausa para eu comentar. Foi mal Zé, foi mal. Eu entendo que você só abre a boca pra falar quando não aguenta mais, só que você não acha que exagera um pouco? Um pouco Zé? Eu exagero muito. Muitississississimo. Zé, as pessoas dizem para eu medir minhas palavras, mas eu não sou boa em matemática. E agora?!

Anna Carolina Morato.

25.6.12

Relatos de uma consumista.


Eu sou ajuizada, é claro que eu sou. Exceto quando estou dentro de uma loja. Toda a conduta de pessoa responsável e consciente some. Sabe aquele tipo de cliente que deixa qualquer vendedora louca? Então, essa sou eu. Entro nas lojas, experimento tudo que eu vejo pela frente. Bagunço toda a pilha de roupas que elas tinham acabo de organizar. Experimento sapatos. Brincos. Anéis. Pulseiras. Óculos. Bolsas. Blusas. Colares.  Vestidos. Principalmente os vestidos, minha paixão.  É que não basta ser mulher. Não basta ser problemática. Não basta ser tripolar. Não basta entende? Tem que ser consumista também! 

Eu aprendi a ser assim com a Sra. Morato porque quando eu era criança, não comprava-se roupas e acessórios por mês, comprava-se por semana. Sábado era dia do que? Coooooooooooooooompras!!!! Não bastasse o que já tinha sido comprado durante a semana, tinha que comprar mais no sábado porque sábado era dia de gastar. Sempre foi. Essa característica consumista eu adquiri com ela, só que agora não posso culpa-lá por eu comprar como se não houvesse amanhã. É, realmente eu não posso culpa-lá. Daqui dois meses e cinco dias eu faço dezoito anos e além do mais, eu já assumo minhas responsabilidades. 

A minha vida desandou quando eu comecei a trabalhar.  Cai na ilusão de que poderia comprar tudo. Engano meu. Um salário minimo não dá e ainda falta. Sou consumista mesmo e gasto todo o meu dinheiro. " Compra. Aproveita. Aproveita agora que você é nova, não tem filho. Não tem marido e não tem casa pra sustentar." - diz a vendedora, diz a cliente consumista do meu lado. Não tenho nada disso, mas tenho futuro e aí? Só que na hora da compra, eu não lembro dele. Eu esqueço completamente. Eu não penso, eu só compro. Compro como se não houvesse amanhã, nem depois de amanhã, nem semana que vem, nem mês que vem.  Eu compro. Compro. Compro e o pior, só penso em comprar.

Cada um desconta suas emoções em algo ou alguma coisa e quando nada está bem, eu compro. É um vicio. Meu devaneio. É bom só na hora porque depois volta tudo ao normal, só que pior. Eu vou para as lojas pra boicotar meus sentimentos, mas depois que o efeito passa, tudo fica ruim novamente. Eu me arrependo. Me arrependo muito. Mas mesmo me arrependendo e me sentindo horrível por ser tão fútil, lá estou eu: comprando. "Carolina, para de gastar." - diz minhas amigas. Só que não dá, é mais forte que eu. É muito mais forte. Não posso me esquecer que  isso é mais um assunto para ser tratado com a minha psicologa mês que vem porque esse mês eu gastei o dinheiro da sessões.

Anna Carolina Morato.