3.2.13

Covardes.


"Espero que você não se importe por eu ter bebido todas as tuas garrafas de Whisky. Espero que também entenda que não estou embriagada, mas eu preciso sentir o álcool correr pelo meu sangue para te escrever. Não me julgue, por favor. Você melhor do que ninguém sabe que eu não sou tão corajosa assim. O que eu quero dizer é que estou profundamente cansada dos meus berros. Eu não te entendo mais, mas não ouso mais perguntar o que aconteceu conosco porque eu enjoei do seu silêncio e da minha voz. Só isso. Não quero mais saber, amor. Não quero mais entender, querido. Meu sorriso é lágrima. Minha alegria é tristeza. Meu amor é solidão. Eu não vivo mais, Guto. Eu só morro. Cadê as suas promessas de amor eterno? Sou uma ridícula mesmo, acreditei em todas elas. O que é que eu tinha na cabeça pra acreditar que você cumpri-las-ia? Na cabeça, eu não sei, mas no coração, eu tinha amor. Eu tenho amor. Todo amor que agora me estilhaça por inteira de tamanha dor, eu doei à você e esqueci do meu eu. Não irei te culpar por isso nunca. Amar-te mais que a mim foi uma escolha minha, eu respondo pelas consequências. Caríssimas por sinal viu? Enfim, chega! Nosso relacionamento faleceu e eu estou de luto por nós, meu bem. Sua ausência me corrói tanto que eu já sinto uma parte do meu coração sendo corroída. Eu aceitei o seu estilo de vida e durante esses anos, foram difíceis, mas toleráveis. Porém, seus planos não são os mesmos que os meus. Estou pensando como é que faz para desfazer um noivado de dois anos. Eu te pediria ajuda se você não fosse um homem tão indisponível. Eu não sei viver sem atenção, querido. Eu preciso do brilho dos teus olhos e do calor do teu corpo. Não sentir você é tão amedrontador. Ter-te tão perto e tão longe. Não veja isso como um dos meus dramas, você bem sabe de que estou certa. No fundo, você sabe. Se nossas notas não fazem mais músicas, se nossa química passou a ser entendida, se nossos olhos não mais brilham... Não há porque continuar. Sinto muito, não existe mais nós. Minha aliança está sob o criado-mudo, faça com ela o que bem entender. Eu sou mesmo uma covarde, você também e covardes não sobem ao altar.
Com toda a dor do mundo, Clara."

Anna Carolina Morato.